O bronzeado acaba, assim como o verão, mas não os efeitos nocivos do sol sobre a pele. E o saldo de uma questão estética pode ser uma doença grave - o câncer de pele, tumor de maior incidência no País, que corresponde a 25% de todos os tumores malignos.
Essa é a época do ano - quando começa a temporada de roupas mais curtas e dias mais longos, praia e piscina - que os cuidados contra os raios solares precisam ser intensificados. Entre as formas de se proteger, o protetor solar tem destaque, mas é preciso saber usá-lo. A dermatologista Lígia Martin, de Londrina, alerta que o brasileiro costuma usar apenas um terço da dose ideal para proteção. “O recomendado é aplicar a quantia de 40 ml no corpo todo (ou 2 mg por centímetro quadrado), o que, com as reaplicações, corresponde a um frasco por dia”, ressalta.
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a aplicação de quantidades insuficientes do produto reduz o fator de proteção solar (FPS) a menos da metade. “Criamos uma equação que estima o real valor do FPS de acordo com a quantidade de filtro solar aplicada”, explica Sergio Schalka, autor principal da pesquisa publicada pela revista “Photodermatology, Photoimmunology & Photomedicine”. “A queda da proteção é exponencial, ou seja, se você passar metade da quantidade recomendada de um protetor solar com FPS 20, o FPS real que você terá será 7.”
Outro erro comum, diz ele, é não reaplicar o filtro solar com frequência durante o período de exposição solar. “Depois de duas horas, o protetor já foi para o espaço por causa do suor, do atrito da pele com a roupa ou com a areia da praia. Mesmo um filtro que em teoria garante proteção por um tempo longo precisa ser reaplicado”.
A Academia Americana de Dermatologia recomenda, desde outubro do ano passado, que o FPS mínimo dos filtros solares seja 30. “Essa preocupação deve ser constante, pois o sol do dia a dia, ao longo da vida, prejudica mais que o da praia uma vez por ano”, ressalta Schalka.
Mas, se nem o hábito existe, o que dizer quando se considera o preço do produto? É com a intenção de deixar o protetor solar mais acessível que pesquisadores do Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba, defendem mudanças em sua classificação de produto estético para medicamento. Uma pesquisa que mostrou que a maioria dos atingidos pelo câncer no sul do País são os de renda mais baixa, principalmente trabalhadores rurais, motivou a discussão.
Com a alteração da classificação do protetor solar, bem como a promoção de mudanças nos hábitos da população, os médicos da instituição acreditam que é possível reduzir a incidência de câncer de pele não melanoma. “A pouca disponibilidade financeira da população pesquisada é que nos leva a pedir que o governo altere a denominação do bloqueador solar de produto estético (com alíquota maior de imposto) para o grupo de medicamentos”, afirma o oncologista e especialista em pele Marcos Montenegro, coordenador da pesquisa.